Muito se pergunta sobre qual a melhor idade para se iniciar a aprendizagem de uma língua adicional e, quanto a isso, não há segredo: quanto antes, melhor. Cada vez mais, sobretudo ao longo dos últimos 20 anos, estudos acadêmicos vêm demonstrando os benefícios linguísticos e cognitivos do contato com línguas desde os primeiros anos de vida (Bialystok, 2022, BIALYSTOK; CRAIK, 2010, BRENTANO, 2020). As crianças, por terem as vias neuronais extremamente maleáveis, estão muito sensíveis aos aprendizados e experiências que vivem ao longo da infância, portanto, seus cérebros estão pré-dispostos ao aprendizado linguístico de mais e uma língua desde o momento que nascem.
De fato, a experiência bilíngue tem impacto na cognição, mas que tipo de experiência é necessária e de que forma esses efeitos podem ser vistos e/ou explorados na sala de aula, ainda é um desafio para professores e gestores que trabalham com educação bilíngue. Pesquisas recentes explicitam que acrescentar, desde os primeiros anos de escolarização, o aprendizado sistemático de uma nova língua favorece a formação de redes neurais fortes para este aprendizado, intensificando competências linguísticas e cognitivas que irão perdurar ao longo da vida.
Em relação aos ganhos cognitivos, os estudos afirmam que o bilinguismo altera a estrutura e o funcionamento da mente, pois estimula e recruta estruturas mentais diferentes das dos monolíngues, em especial, no momento que precisam inibir uma de suas línguas para utilizar a outra. Costumamos dizer que esse processo de inibição de uma das línguas produz um exercício mental constante e, portanto, estimula um desenvolvimento mais acelerado da criatividade, do raciocínio e do controle executivo (BRENTANO, 2020; KROLL; BIALYSTOK, 2013).
Sendo assim, o contato constante com uma língua adicional, mesmo antes da aquisição da habilidade de leitura e escrita, não apenas solidifica a formação de redes neurais robustas, que favorecem o aprendizado de línguas, mas também expande os limites em outros campos relacionados à linguagem, como questões fonológicas e fonéticas, que implicarão no processo de alfabetização. De fato, independente se a escola alfabetiza em uma língua apenas ou nas duas línguas de instrução, ao iniciar o processo de escrita e leitura, a criança bilíngue não o faz apenas em uma de suas línguas pois as características estruturais das duas línguas e as ortografias irão influenciar na forma como uma criança bilíngue aprende a ler e a organização cerebral desta criança para leitura (Kroll, 2013).
Portanto, oferecer à criança a chance de conectar-se com o mundo através de variadas línguas, podendo construir conhecimentos e encontrar respostas a novos questionamentos ao longo da sua trajetória de vida, é, antes de tudo, uma grande oportunidade. A exposição diária não apenas a conteúdos linguísticos, mas ao aprendizado de conteúdos outros por meio de uma nova língua, fortalece a capacidade do estudante de pensar com e sobre as línguas, fazer inferências e deduções, comparações com outros idiomas, aos quais eventualmente também tem acesso, e utilizar a língua adicional como ferramenta para aprender conteúdos acadêmicos.
Em resumo, ser bilíngue desde a infância, traz benefícios inegáveis à vida de um indivíduo, influenciando seu desenvolvimento cognitivo, cultural e também social, uma vez que a comunicação com outros países é facilitada. Sendo assim, a possibilidade de construir conhecimento aprofundado em mais que uma língua expande horizontes culturais e permite uma visão mais aguçada e respeitosa sobre o mundo, uma vez que a experiência bilíngue contribui para o desenvolvimento das funções cognitivas superiores e pode auxiliar e muito no desenvolvimento de sujeitos mais atuantes, culturalmente diversos, engajados e competentes para se comunicar com o mundo (Brentano, 2020).
BIALYSTOK, E. Educating bilingual children. In: BIALYSTOK, E. Bilingual children: families, education, and development. New York: TBR Books, 2022. 169 p.
BIALYSTOK, E.; CRAIK, F. Cognitive and Linguistic Processing in the Bilingual Mind. Current Directions in Psychological Science, v. 19, p. 19-23, 2010.
BRENTANO, L. S. A experiência bilíngue e a cognição: implicações na sala de aula. In: MEGALE, A. (org.) Desafios e práticas na Educação Bilíngue. São Paulo, SP: Fundação Santillana, 2020. p. 123-136.
KROLL, J. F.; BIALYSTOK, E. Understanding the consequences of bilingualism for language processing and cognition. Journal of Cognitive Psychology, vol. 25, pp. 497-514, 2013.