Uma expedição a quatro universidades do Reino Unido revela que a excelência acadêmica nasce menos de prédios e rankings do que de uma cultura que coloca o estudante, sua autonomia e seu bem-estar no centro da aprendizagem. O que isso significa para a escola bilíngue brasileira?
Por Luciana Brentano*

A autora diante da King’s College Chapel, em Cambridge, durante a Ways Expedition 2026.
Quando pensamos em uma universidade, costumamos evocar seus prédios, suas salas de aula e sua posição nos rankings internacionais. Há, contudo, uma dimensão igualmente relevante e frequentemente negligenciada: o território em que essas instituições nasceram e no qual continuam a se desenvolver. A universidade não existe isolada de seu entorno; ela o molda e é por ele moldada.
Na última semana, acompanhei mantenedores das escolas Ways Bilingual School na Ways Expedition 2026, cujo propósito foi conhecer instituições de ensino superior do Reino Unido que representam diferentes tradições, áreas de excelência e concepções de educação superior. Visitamos quatro universidades: University of Sussex, University of Cambridge, Brunel University London e University of Kent. Ouvimos docentes e profissionais que conhecem de perto seus programas e observamos como se pensa a educação universitária no Reino Unido. Cada instituição revelou uma identidade própria: algumas sustentam uma tradição acadêmica secular; outras articulam inovação, diversidade e criatividade.
Cidades que educam
Antes mesmo de adentrar os campi, o ambiente urbano chamou atenção. As ruas são organizadas, arborizadas e altamente caminháveis. A presença de estudantes internacionais é marcante, e cafés e pubs funcionam como espaços informais de convivência entre alunos e pesquisadores. Predomina uma sensação constante de segurança e tranquilidade, aliada a uma diversidade cultural expressiva. Museus, bibliotecas e instituições de acesso público ampliam as oportunidades de aprendizagem para além dos muros universitários. O transporte é eficiente e integrado, embora o metrô, a meu ver, ainda apresente limitações importantes de acessibilidade. O ritmo é acelerado, mas notavelmente organizado.
Esse conjunto de elementos sugere que a qualidade acadêmica não se explica apenas pelo que acontece dentro das instituições, mas também pela relação que estabelecem com a cidade e com a vida pública. Chamou-me atenção, sobretudo, a importância que os estudantes atribuem à própria aprendizagem.
Aprender é uma busca pessoal e intransferível. A universidade oferece o espaço; a dedicação, o empenho e a vontade de descobrir são a bússola dos estudantes.
Quatro universidades, quatro identidades
University of Sussex: pensar o futuro de forma interdisciplinar

O campus de Falmer, na borda de Brighton, inserido no South Downs National Park.
Fundada em 1961, a University of Sussex foi a primeira das chamadas plate glass universities, a geração de universidades britânicas criada nos anos 1960. Nasceu com uma proposta ousada: romper as barreiras entre as áreas do conhecimento e desenhar “um novo mapa do aprendizado”. Hoje reúne cerca de 19 mil estudantes, provenientes de mais de 170 países.
A instituição tornou-se reconhecida por promover o diálogo entre disciplinas para compreender problemas complexos da sociedade contemporânea, que dificilmente cabem nos limites de uma única área. Destacam-se seus programas em Desenvolvimento Internacional, Sustentabilidade, Ciências Sociais, Política e Estudos Ambientais. Há dez anos consecutivos, em parceria com o Institute of Development Studies, ocupa o primeiro lugar mundial em Estudos do Desenvolvimento, e três vencedores do Prêmio Nobel já integraram sua comunidade acadêmica.
Do ponto de vista da educação plurilíngue, chama atenção que qualquer estudante possa combinar seu curso com o estudo de uma língua, inclusive a Língua de Sinais Britânica (BSL), colocada em pé de igualdade com idiomas como o francês e o mandarim.
University of Cambridge: tradição e inovação como projetos complementares

King’s College, em Cambridge: mais de oito séculos de tradição a serviço da inovação.
Fundada em 1209, Cambridge é uma das universidades mais antigas e prestigiadas do mundo e, ao longo de mais de oito séculos, consolidou-se como um dos principais centros globais de produção de conhecimento. Entre seus ex-alunos e pesquisadores estão Isaac Newton, Charles Darwin, Stephen Hawking e Alan Turing. Mais de 120 vencedores do Prêmio Nobel tiveram vínculo com a instituição, um dos maiores números entre as universidades do mundo. Suas áreas de destaque incluem Ciências, Engenharia, Matemática, Tecnologia e Medicina.
Cambridge evidencia que tradição e inovação não são forças opostas. Visitar os espaços onde surgiram algumas das ideias mais influentes da humanidade é uma experiência marcante, e dela emerge uma pergunta inevitável: o que isso ensina às nossas escolas no Brasil?
Uma grande instituição de ensino não é aquela que pretende ensinar tudo, mas aquela que forma sujeitos capazes de aprender ao longo da vida, com autonomia, curiosidade e responsabilidade pelo próprio conhecimento.
Quando esse aprendizado ocorre em mais de uma língua, o estudante desenvolve, adicionalmente, um olhar internacional, capaz de dialogar com o mundo.
Brunel University London: inovação aplicada ao mundo real

Na Brunel, teoria e prática caminham juntas desde a graduação.
Criada em homenagem ao engenheiro Isambard Kingdom Brunel, uma das figuras centrais da Revolução Industrial britânica, a Brunel University London mantém uma forte articulação entre teoria e prática. Seu modelo de ensino valoriza experiências profissionais, projetos aplicados e proximidade com a indústria, e é amplamente reconhecido pelos programas de estágio e de inserção profissional durante a graduação. Destacam-se as áreas de Engenharia, Design, Tecnologia, Negócios e Ciências do Esporte.
A experiência na Brunel reforça um princípio caro à educação bilíngue: o aprendizado adquire sentido quando encontra o mundo real, e a língua se consolida quando é mobilizada para resolver problemas autênticos.
University of Kent: vocação internacional

O campus de Canterbury, com vista para a cidade histórica.
Fundada em 1965 e conhecida como “a universidade europeia do Reino Unido”, a University of Kent foi concebida com forte visão internacional e com o propósito de fomentar a colaboração entre países e culturas. Sua localização estratégica, próxima ao continente europeu, ajudou a consolidar essa identidade global. Seu campus principal oferece vista para a histórica Canterbury, um dos mais importantes patrimônios culturais da Inglaterra. Suas áreas de destaque incluem Relações Internacionais, Direito, Ciência Política, Humanidades e Negócios.
Em 2026, Kent viveu uma mudança histórica: uniu-se à University of Greenwich para formar o London and South East University Group, primeira “super-universidade” do Reino Unido, preservando seu nome e sua identidade acadêmica. Isso me fez pensar em duas questões. Primeiro: formar cidadãos do mundo não é só ensinar outra língua, é aprender a dialogar com outras culturas. Segundo: como uma instituição de ensino preserva sua identidade quando precisa se reinventar? Em Kent, observei como a preservação da história convive de modo natural com metodologias e estruturas educacionais contemporâneas.
Três aprendizagens transversais
Para além das especificidades de cada instituição, três aspectos se destacaram:
- A centralidade do estudo autônomo. O número de aulas presenciais é reduzido, enquanto as horas de estudo individual são significativamente maiores. Já no primeiro ano, o estudante escolhe os módulos que correspondem a seus interesses, o que pressupõe e, ao mesmo tempo, desenvolve autonomia e autorregulação.
- A internacionalização como construção de pontes entre culturas. Internacionalizar não se reduz à presença de estudantes estrangeiros ou ao ensino em inglês; trata-se de criar condições efetivas de diálogo intercultural.
- A produção de conhecimento como cultura institucional. O fato de mais de 120 vencedores do Prêmio Nobel terem tido vínculo com Cambridge ilustra o que ocorre quando a pesquisa é estimulada e incorporada à identidade de uma instituição ao longo de séculos.
O que mais me tocou foi perceber que, embora diferentes em tamanho, ritmo, estilo e personalidade, todas essas universidades compartilham uma mesma característica.
Elas compreendem a educação como parte constitutiva da vida em sociedade e entendem que a excelência acadêmica se converte em cultura local.
O que encontrei não foram salas modernas ou laptops distribuídos pelos ambientes. Foram grandes bibliotecas, cursos, professores e espaços preparados para receber alunos do mundo todo; metodologias que estimulam a aprendizagem autônoma e a curiosidade; e, sobretudo, um cuidado claro com a saúde mental dos estudantes. São essas ideias e concepções que desejo levar para a educação básica brasileira.
Implicações para a escola bilíngue brasileira
Uma escola bilíngue de qualidade não se constitui apenas por meio de uma proposta que ensine uma língua adicional e de certificações internacionais que avaliem essa língua. Ela se sustenta em quatro pilares:
| Pilar | O que significa |
| Currículo | Concebido com intencionalidade e com coerência entre as línguas de instrução |
| Formação de professores | Contínua e teoricamente fundamentada |
| Compreensão de como o sujeito bilíngue aprende | Potencializar as trocas entre línguas e culturas, com decisões pedagógicas apoiadas em evidências |
| Metodologia para o estudante do século 21 | O estudante no centro da aprendizagem, desenvolvendo autonomia e responsabilidade pelo próprio conhecimento |
Considerações finais
Como as universidades do Reino Unido podem dialogar com as propostas de internacionalização das escolas bilíngues? Foi essa a pergunta que me levou à Inglaterra: compreender como a pesquisa dialoga com a aprendizagem dos estudantes e trazer esse conhecimento para as nossas escolas.
Desde o doutorado-sanduíche na University of California, Irvine, sustento que a internacionalização da educação não consiste em importar modelos, mas em colocar a pesquisa em diálogo com a nossa realidade e aprender com o mundo para fortalecer o que fazemos aqui. Esta expedição reafirmou essa convicção.
Ciência e sala de aula precisam conversar.
Experiências como esta me lembram, a cada dia, o sentido do trabalho que realizo e das pesquisas que ainda pretendo conduzir.
*Luciana Brentano é doutora em Psicolinguística do Bilinguismo pela UFRGS, fundadora da Associação Brasileira de Educação Plurilíngue (ABRASEP) e primeira autora do livro “Fundamentos da Escolarização Bilíngue” (Pearson).